A vida fracionada em 8 por cinco


A jornada de trabalho já não é mais a mesma e a convenção da fração 8 horas por dia cinco vezes por semana afrouxa quando se fala em ritmo pós-moderno. Estamos glamorizando novas tendências

 Você é daqueles que acredita que a jornada de trabalho é uma jaula?Estar a disposição da empresa oito horas por dia, cinco vezes por semana, pregado ao fio invisível do relógio na parede o torna um “macaco” infeliz? Cada vez mais o empreendedor pós-moderno dá um jeito na tradição e se solta das amarras das convenções sociais, moldando o seu próprio ritmo.

Fazer do 8 por 5 a fração dogmática de uma vida de sucesso não é mais o sonho de todo mundo. Afinal, sucesso é também fazer o que se gosta e se estamos em uma era diluída de propósitos extremamente restritivos, a condição natural é que se afrouxem as algemas trabalhistas, não em nome de um ócio improdutivo, mas sim de mais eficiência fora de um horário pré-determinado. Uma vida com mais fruição.

Quem viveu os loucos anos 1980  pode conhecer o sentido da música “Rotina” da banda Camisa de Vênus: “Odeio o relógio de ponto, as paranoias depois eu conto”, cantava a banda ironizando a contravenção do esquema fracional 8 por 5.

Oito horas por dia cinco vezes por semana, uma servidão voluntária em nome da esperança de  riqueza ou da sobrevivência. Afinal, quem disse que tem de ser assim? A resposta é rápida e certeira: A Justiça. No Direito, regular a período de trabalho se tornou essencial ao homem.  Há 70 anos, as pessoas trabalhavam muito mais horas por dia em todo o mundo. Se voltarmos mais para trás, há 200 anos, as pessoas e até mesmo crianças, chegavam a atingir picos de trabalho de 16 horas diárias. Aí, então entrou a  Declaração Universal dos Direitos Humanos   promulgada há 66 anos preconizou que “todo o homem tem direito a repouso e limitação razoável nas horas de trabalho”. Com ela veio a Justiça e sim, porque não dizer uma espécie de tédio. Mirar a parede em busca do tique e taque das horas que se arrastam é o enfado feito do fardo justiceiro. Há sempre os dois lados da mesma moeda.  E é por causa dele que as coisas no mundo pós-moderno vivem se adaptando.

Ritmo louco

A geração Y (ou quarentões que pensam como a geração Y) vem quebrando o padrão da rotina trabalhista. Antenados, descolados e controversos a hierarquia, mesmo que seja a da cronologia das horas,  eles dão rumo a um novo tipo de jornada de trabalho: uma jornada customizada, aquela feita à la carte, bem do jeito que  gostam. A internet e as redes sociais ajudam a impulsionar esse novo padrão de vida trabalhista, afinal de contas, encurta distâncias e novos formatos de trabalho se criam por conta da cibercultura.

Com nome de profissão americano, o light designer  André Heuser (37) tem o horário embolado e é assim que ele gosta. O ritmo “Tem dias que não trabalho nada e há outros em que fico 48 horas ligado nas tarefas.” O iluminador de eventos não troca sua falta de rotina por um dia encaixadinho. “Só tive rotina dentro do quartel. Jamais faria isso: bater cartão ou acordar no mesmo horário. Para mim, a vida é louca.”Pela internet, ele compra seu equipamento, algumas engenhocas trazidas da China, outras do próprio Brasil e traça sua própria carreira.  A liberdade de agir e se confundir com hábitos noturnos faz com que ele produza melhor. “O meu trabalho  só aparece quando o astro rei vai embora.” No trabalho, sem relógio de ponto, o astro rei é o próprio Heuser. Orbita em torno de seu próprio deleite luminoso.

rumo ao insucesso

A pesquisadora mineira Betânia Tanure, em seu livro Sucesso e (In)Felicidade expôs uma informação impactante: 84% dos seus executivos investigados estão infelizes no trabalho. O estresse é por conta da competição e da pressão por resultados. Se pessoas de alto patamar corporativo naufragam em um mundo enrijecido pelas horas e pela ditadura do “mais” dinheiro, o que sobra para os que estão no pé da montanha e precisam galgar os estreitos degraus do merecimento trabalhista? Desapertar o nó da gravata e os nós trabalhistas pode ser uma eficaz forma de ver nascer uma nova ordem social trabalhista: assim ninguém fica com cara de doente quando termina o expediente. E como diz o Camisa de Vênus: “não, não pare não.”

Você sabia?

  • Segundo o dicionário etimológico ( que dá a origem das palavras), o termo “trabalho” vem do latim “tripalium”. Eraum  instrumento de tortura, consiste num gancho de três pontas, cuja função é a evisceração ou a retirada e exposição das tripas, região de intensa dor e de lenta agonia. Foi criado e utilizado durante a Inquisição. Para você ver, o trabalho era visto sob a ótica da maldição.

Depois a palavra passou para o francês “Travailler”, “sofrer, sentir dor”, evoluindo depois para “trabalhar duro”. Passando para a Inglaterra, acabou surgindo a palavra “Travel”. Certamente da noção que, nessa época, com poucas hospedarias e muitos ladrões na estrada, uma viagem era algo muito sofrido.

–  O relógio mecânico é uma invenção do século 14, enquanto que a divisão do dia em 24 horas surgiu por volta de 5000 a.C.. A divisão do dia foi criada a partir do meio-dia, quando o sol está a pino: seis partes antes do meio-dia (manhã) e seis depois (tarde). A outra metade, claro, era a noite. Ideia da Babilônia.

REVISTA MAZUP/OUTUBRO 2014

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