Forjado na revolução da história


Sequestrado no dia do bicentenário da Revolução Francesa, há 25 anos, historiador conta como as revoluções fizeram parte de sua vida e como uma em especial lhe inspirou na trajetória de perseguir verdades por meio da pesquisa

 No  seu  “santuário” literário em Lajeado,  interior do Estado, o professor e historiador José Alfredo Schierholt (80) recebe amigos de longa data, empresários  e figuras proeminentes da região. Ele é biógrafo há mais de duas décadas e se reinventou com a internet. A beira dos 80 anos, o historiador que começou a publicar em máquinas de datilografia, hoje tem um computador no qual se vira para manter um blog, enviar informações atualizadas na sua lista de mailing e realizar obituários de personalidades da região.

Com a biblioteca lotada de títulos centenárias e  arquivos históricos, relatos de batalhas ou histórias de vida,  árvores genealógicas ou trajetórias empresariais, arquivos de jornais para embasar fatos, o professor não desviou seu olhar do futuro. Ao contrário, aguçou. Schierholt  foi o primeiro dos 200 escritores do Vale do Taquari a lançar um e-book em 2007. Com uma visão libertária da internet, o professor que começou a escrever livros após os  50 anos, avisa: “eu não tenho nada contra baixar livros na internet, quanto mais leitura, melhor. Eu quero ser lido.”

A adaptabilidade tecnológica do historiador que todos conhecem por “professor Schierholt”,  não é tão veloz quanto a velocidade da internet  embora  seja tão aguerrida quanto as guerrilhas que ele  pesquisou em sua  carreira. São 14 livros publicados.  Por ser um buscador de verdades, Schirerholt se transformou em escritor-pesquisador.  Poucos sabem que uma revolução tem enorme influência nisso. Uma revolução discretamente comentada, ainda que muito sangrenta e que ao professor não passou despercebida na época da faculdade: A Revolução Federalista.

As revoluções de Schierholt

Como uma revolta armada pode inspirar um homem a se tornar escritor? Porque instiga a busca da verdade que não está evidente.  A Revolução Federalista foi o fio de que desenlaçou a manta para tecer o futuro de Schierholt justamente por ser misteriosa para ele na época. “Foi uma revolta cruel, de irmão contra irmão para derrubar Júlio de Castilhos (O presidente do Rio Grande do Sul na época).  A tal ponto sangrenta que os historiadores a escondem porque ela é uma pecha contra o gaúcho, povo hospitaleiro. Houve degolas. Naquele tempo não aceitavam-se pessoas neutras. Estava-se de um lado ou de outro.” A Revolução Federalista ocorreu  entre 1893 e 1895, dois anos de disputa políticas entre chimangos (a favor do governo) e maragatos (federalistas, queriam o parlamentarismo).

Em Hullha Negra, cidade onde nascera quatro décadas depois da revolta, Schierholt ouvira durante toda a infância sobre a degola de 300 pessoas.  Os relatos  dos “antigos” e as encenações para assustar o menino curioso davam conta de detalhes cruéis da degola, fatos que  marcaram a infância e incitaram o futuro. “Para me amedrontar, os mais velhos encenavam a degola, colocando por entre as pernas a pessoa e puxando a cabeça para trás. Isso me assustava.”

Na escola, aprendeu sobre a Revolução Farroupilha e batalhas diversas. Na faculdade de História, novamente os mesmos relatos, mais aprofundados. Tantas batalhas, mas cadê aquela que ele aprendeu quando menino?

O desafio de procurar a história perdida no sangue oculto o levou a investigar. Se jamais tinha encontrado literatura sobre a batalha local, o que havia por trás do fato?.  “Eu fiz um juramento, queria saber a verdade.” E foi buscá-la.

O livro a Revolução Federalista foi sua segunda obra e a primeira que ele valorizou. Pelo primeiro livro, não havia se afeiçoado.

Aos 53 anos ele veria  nascer  de suas mãos uma obra em memória a guerrilha que tanto o impressionou de criança. Uma pesquisa extensa, feita com a ajuda da mulher Renê Alievi Schierholt e criteriosamente  averiguada nas páginas do jornal O Taquaryense, o segundo mais antigo do Rio Grande do Sul e o único da América Latina a ser produzido de forma artesanal.

A mão do inevitável lhe atingiu. Schierholt foi sequestrado no  dia do bicentenário da Revolução Francesa, há 25 anos, pouco antes de o livro ser lançado.  Sob a mira de três revólveres no banco de trás do próprio carro, o historiador pensou: “não verei meu livro ser publicado.” Uma revolução de ideias se passava em sua cabeça, até que 30 quilômetros adiante, o historiador foi libertado. Os assaltantes levaram o carro.  Ele sobreviveu para receber o aplauso do lançamento do lançamento da sua Revolução Federalista, dois meses depois.

Hoje,  um quarto de século depois, é possível traçar um paralelo entre as revoluções de Schierholt. Sua obra foi concretizada a duras penas, assim como a Revolução  Federalista havia sido sangrenta. “Não me degolaram, mas foi praticada uma violência”, diz o professor a respeito do assalto, o qual lembra em seu blog.

A internet  é sua terceira revolução.  Se libertar da  máquina de datilografar e aderir ao computador, virar pesquisador –blogueiro e lutar de igual para igual com escritores da geração Y e Z o torna um combatente no front literário.  São 14 livros lançados até hoje e um futuro incerto quanto ao seu acervo. Mais de mil livros em obras de pesquisa.  “Estou com 80 anos, para onde isso tudo irá?” Ele busca um lugar público para que as obras possam ser lidas, folheadas, pesquisadas.

O professor também está preocupado com a escassez de pesquisadores no interior do Estado e a falta de biógrafos na região dos Vales. Quem fará o trabalho dos obituários quando os que aqui estão se forem? Quem atualizará os verbetes locais? Quem colocará nos dicionários regionais as personalidades para que a história perdure e seja lançada na memória do tempo?

Schierholt, o homem que um dia foi todo do papel, volta sua mira para o virtual. Ali, a memória persiste. Mas é preciso formar pesquisadores para fazer o trabalho humano, demasiado humano.

  Frase

“Eu quero ser lido, por isso me adaptei a internet. Não  estou interessado na venda do livro virtual, eu quero ser lido. Acredito que a internet tem que ser aberta, sei que tem pirataria, mas quanto mais leitura melhor”

(José Alfredo Schierholt)

MATÉRIA GENTE QUE FAZ/OUTUBRO 2014

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