No balanço da crença, a iminência do Natal


O fim de ano naturalmente remete à reflexão. Fazemos um balanço de como nos comportamos durante os 12 meses, nossas perdas e ganhos, nossas atitudes equivocadas e as acertadas. Afinal, um ciclo está terminando e abre-se outro. Você, mesmo sem fazer aquelas tradicionais resoluções de virada, faz uma lista mental para saber o que desejará no ano vindouro.

Natal para mim sempre foi sem ritos, não costumo perceber o cerimonial que irradia em todas as casas, mesmo com a iluminação específica, pinheiros nos shoppings e guirlandas que ornamentam postes públicos. No entanto, essa tal ponderação que todo o ser humano compromete-se a fazer consigo, eu mesma a realizo muito mais quando vejo os fogos de artifício do reveillón do que na dita festa de Papai Noel.

O que eu penso cá comigo é: com que grau de espiritualidade eu atuei no ano que passou? Costumo lembrar do meu egoísmo, e às vezes da minha falta de fé para comigo mesma. Ao mesmo tempo, minha sensibilidade aflora: penso nas crianças pobres que veem os belos presentes apenas pela vidraça das lojas. Penso na minoria de crianças que receberão um montão de brinquedos a ponto de fazê-los, no futuro, adultos narcisista ou hiperconsumidores.

O Natal, para mim, é sempre um paradoxo, uma gangorra de emoções: de um lado, famílias unidas, alegres e felizes na ceia natalina. De outro, crianças que pedem material escolar como único presente na cartinha dos Correios. Já chorei por causa disso em vezes anteriores e penso: se sou sensível a ponto de chorar, então é porque tenho um pouco de espiritualidade. Mas chorar é suficiente? Espiritualidade está ligada à fé? Não creio que Deus tenha ouvidos para satisfazer sete bilhões de pessoas que existem no mundo, todas elas com um pedido especial. Ao mesmo tempo, se ele é onipresente e onisciente, ele atenderá aos clamores, não só no Natal, mas em todas as épocas do ano. A fé não precisa de data especial para ser revelada. Eu sempre quis ser mais fervorosa nas minhas orações e menos cientifica nas minhas constatações.

A fé tem um componente especial de te dar apoio quando tudo o mais desaba. O biólogo americano Dean Hamer escreveu, em 20005, um livro chamado “O Gene de Deus”. Ele diz que o código genético de uma pessoa determina o tamanho de sua fé. Pessoas com sexto sentido, que sentem uma conexão espiritual com a natureza e com as pessoas à sua volta têm um grau de espiritualidade maior. O autor acredita que há seres humanos predispostos a ter experiências espirituais.

Um ano depois de Hamer ter lançado o livro que causou polêmica a revista Superinteressante trouxe uma matéria sobre o autor e sobre a espiritualidade. No artigo, consta que para os psicólogos modernos, a espiritualidade é um bom canal para o homem desaguar a culpa inconsciente causada por sentimentos como a inveja ou o desejo de ter a mãe ou o pai só para si.

Precisamos ter fé em Deus para poder controlar nossos piores medos e não entrar em desespero total.  Necessitamos da crença também para superar o medo da morte, que seria a maior fonte de angústia do ser humano. “A crença em Deus ajudaria o homem a seguir adiante sem gastar muita energia se preocupando com o momento derradeiro de sua existência”, explica a matéria. Percebo que essa crença eclode no fim do ano e mesmo os céticos, suponho eu, pensam em Deus, se não para reverenciá-lo, ao menos para, novamente, questionar sua existência. Afinal, até não ter fé é uma fé ao contrário. Qualquer que seja o seu lado, nada impede que você faça boas ações neste Natal, no Ano Novo e em todos os outros dias de sua vida. Boas ações dependem mais de caráter do que de crença.

*Revista Profissão Regional/dezembro 2014

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