Um desabafo não pode ser fatal


Uma dor agonizante convive comigo dia e noite. Sou uma pessoa que está cansada da rotina de me ser. Em muita parte do tempo, prefiro idealizar o não-ser. Imaginar a morte como o fim do sofrimento. A vida é um espelho e todo dia de manhã eu tenho de me olhar e ver o reflexo de uma mulher fracassada, amarga e desalentada pela vida.

Aos 43 anos faço um balanço mental do que sou, fazia isso aos 30 e já me apavorava do quão pouco evoluí, mas ainda tinha esperança de ser gente graúda. Agora, dobrando o cabo das quatro décadas percebo o quanto fracassei na vida. Não tenho casa própria, com 22 anos de jornalismo não consegui nenhum cargo de chefia, não consegui sequer ganhar um prêmio na área de reportagem, aqueles que comprovam que somos bons naquilo que queremos ser.
Tenho uma filha de 15 anos para criar e com a minha vulnerabilidade emocional não consegui também fazê-la gerenciar as emoções.
Alem de ser depressiva, ensinei por osmose minha filha a ser.
Sabe, tenho sim inveja das pessoas. Consigo detectar isso quando alguém  comemora a compra de um carro novo e eu fico com meu celta 2001 descascado. Consigo perceber a minha maldade quando me comparo com jornalistas que estão em outro patamar e eu, grameando para me manter sem contas.
Não estou conectada com nenhuma pessoa, não consigo perceber vínculo com ninguém, a não ser com minha filha. Não tenho conexão com a natureza, não me sinto espiritual apesar de gostar do budismo e fazer algumas tentativas anteriores no sentido de ser uma pessoa melhor.  Sou arredia, não consigo abraçar, dizer que gosto, na verdade poucas coisas eu gosto a não ser da minha filha,de ler e de conhecimento.
Sempre odiei a rejeição. É o que mais alimenta minha amargura. Qualquer coisa leva como uma circunstância de rejeição. Se for rejeitada, sou um fracasso, se sou um fracasso não vale a pena, se não valho à pena, sou uma mosca morta num canto de uma sala infecta, invisível ou pior, visível pela menos-valia, pelo fracasso. Eu sou um não ser em vida. Como diz Clarice Lispector, a vida me crava os dentes.
Não pense que essa situação é cômoda e que não quero sair em desabalada carreira para mudar minha voltagem de pensamento, para ter um novo corpo, para me sentir magra, querida como pessoa física e de alma. Mas me sinto rejeitada por todos os cantos, ferida no flanco.
Eu sou tão triste que não almejo ser feliz. Aliás, há muito tempo eu não sei o que  é ter um momento de felicidade, sabe aqueles que a gente quer gritar e dizer: Uau que legal que isso está acontecendo comigo!Como a vida é boa. Obrigada,  Deus. Mas, Zeus, não isso escorre.
Eu sou tãol triste que acho que a tristeza é meu chocolate, virou um vicio. Se ela não está na minha bolsa, na minha geladeira, eu tenho de comprar um pouco. Parece que sou algemada nela. Mas a vida não sai da frente. Eu vivo na franja da dor e queria muito perceber psicologicamente como isso age no meu cérebro, porque tenho de ser assim, uma deficiente emocional. Eu vivo todos os dias um aqui jaz amarrada na vida, desprovida de esperança, nutrida de desamor por mim mesma. Na música, um desamor não pode ser fatal, no meu caso, apenas fadado aos dias sombrio. Meu crepúsculo eu vivo aqui, sepultada em meio à tristeza. O ocaso de uma vida que um dia, para lembrar Augusto Cury, foi um espermatozóide vencedor. Uma escrita densa, vitimizada pela autora. Não se preocupe, isso também passa. Um desabafo não pode ser fatal.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s