Textos e matérias

Içami Tiba

Família deve educar por mérito, filho cansa de ouvir pais irritados

 Psiquiatra diz que pais estão perdidos e precisam se capacitar para aprender a educar filhos. Ordem de mãe é ineficaz.

içami tiba

 O mundo é meritocrata, logo, a família deve adotar o mesmo sistema: premiar filhos que conquistam méritos e eles precisam se esforçar continuamente para isso porque se não o fizerem, o mundo os esquecerá. Até para sobreviver é preciso merecer, já que corremos riscos a toda hora. “Qualidade de vida é o maior prêmio para a pessoa que além de fazer, sabe viver de uma forma legal”, explica o psiquiatra Içami Tiba, um japonês cujos livros de educação no Brasil são tão influentes quanto  obras de Sigmund Freud.

Em Teutônia em outubro, Tiba foi aplaudido em pé por pais e professores. O palestrante alertou para uma questão que não é propriamente nova. Os pais estão perdidos e precisam ser educados para educar os filhos. Disse mais: a mãe moderna é antiga porque continua machista dentro de casa. Emancipou-se, foi para o mercado de trabalho, mas não permite que na cozinha,  marido e filhos façam a comida ou lavem a louça. Assim, a própria mãe atrofia a capacidade filial. Atrapalha a autonomia.  Educar significa tornar os filhos menos dependentes e mais cidadãos éticos.

Quando a escola pede ajuda para que o filho varra o chão, a mãe sente-se humilhada. Varrer chão é  educar. No Japão, alunos  tem 15 minutos diários para organizar a escola. No Brasil, seria insulto.

“Se eu levo um copo  dágua para minha filha, atrofio a capacidade dela, estou aleijando-a,  fazendo-a dependente e não sustentável. Não é raro aparecer no meu consultório rapazes muito  inteligentes, que fizeram sete faculdades, todas  abandonadas pela metade, por encrencas com professor. Foram capazes de abrir mão de uma carreira por não conseguirem superar conflitos com autoridades. São inteligentes, mas não rendem. Como confiar uma empresa a eles? “.  Com isso, Tiba mostra que uma birra de filho que não tenha sido resolvida em família destrói o esquema de relacionamento no futuro.

Os pais negligenciam a educação das crianças quando são dirigidos pelos desejos delas. A receita do psiquiatra é simples, mas não é fácil. Menos  sermão materno e mais comando. Quando mãe se irrita, a voz fica irritante. Meia hora depois, leva o  sanduiche para o filho no quarto.  “Única ordem que filho não cumpre e  a de mãe. Porque ela mesmo faz.”

Toda criança tem que aprender a guardar seus brinquedos na caixa. Estudante que não faz a lição de casa não janta. Esqueceu de fazer e já dormiu, desperte-o na madrugada, mas não perca a paciência. É preciso impor a obrigação de que o filho faça porque é dentro do lar que começa a cidadania. Não pode fazer em casa o que não se faz lá fora na sociedade. Pai deve fazer com que o filho faça o que precisa ser feito.

Valor do conhecimento

“O que muda as pessoas é o conhecimento, e as pessoas só mudam fazendo. Para alcançarmos o sucesso precisamos dar um passo além do que sempre fizemos no nosso dia a dia. Por isso os pais também precisam saber o momento em que seus filhos devem começar a cuidar de suas próprias vidas, com autonomia e sustentabilidade, pois depois, lá adiante, são esses filhos que irão cuidar de nós, pais. E, professores, tenham consciência de que os verdadeiros mestres guiam os alunos, não apenas ensinam, e é isso que falta para alguns docentes”, disse.

Mesma linguagem

Tiba atendeu 80 mil pessoas em seu consultório e, percebeu que bronca de mãe irritada filho não escuta. Filhos cansam de escutar e se são tiranos, quem precisa de educação são os pais.

A lógica de Tiba reflete o pensamento de que filhos devem ser sustentáveis e os pais melhorarem a performance. Para isso precisam ler e correr atrás de informação. “´Fácil é deixar filho solto, criá-lo igual galinha no quintal. Mal ele precisa ter modos e civilidade. Ninguém nasce sabendo. Então para isso, são os pais que precisam ir em busca de formação. Essa entrevista pode ser útil para muitos pais. Agora, quem não sabe nada, prefere ver futebol do que educar.”

Ele diz que para lidar com a geração Y – adoradora da internet e do Facebook –  os pais precisam utilizar os  instrumentos  iguais.  “Pai que não sabe, não ensina. Devem  se empenhar para aprender e usar a mesma linguagem dos filhos.”

Pai tem que ser justo e deixar a arrogância de lado. Os filhos também são bons para ensinar. Gostam de explicar aos pais sobre tecnologia.  Tiba disse uma frase de impacto que merece reflexão: “A  tendência de quem tem poder é ser arrogante.  Os nossos modelos públicos são horríveis para a educação. No Brasil a escola não funciona porque,  para o governo não interessa gente culta e que pensa. Apenas pessoas que vê foto de futebol. O governo gasta no futebol porque dá voto. O país é governando por analfabeto e até presidiário. Onde está o furo?Está na família que não forma pessoas que pensam. O Tiririca é engraçado, votamos nele. Isso não e autonomia, é vaca de presépio. Os filhos são ótimos para mostrar como nós funcionamos. “

Revista Assim/Janeiro 2014


Lições de rua de Iara, a gari

Iara Cristina de Souza varre o Centro de Lajeado e sacia a sede solicitando água nas lojas.  Apesar de ter dinheiro para abrir mão da marmita e se abancar em restaurante prefere almoçar em escadas ou calçadas por causa do olhar julgador da sociedade.

gari iara foto 1

Sorriso no rosto, vocabulário atilado e voz macia. O uniforme laranja indica a função social: Iara Cristina de Souza, gari, com liberdade de sorrir e conhecer pessoas. O tempo de profissão é curto, seis meses fazendo a faxina das calçadas  já lhe valeram a “ampliação” da rede de conhecidos.  Aos 42 anos, Iara é  varredora comunicativa. Gosta do trabalho sem paredes.

Limpa frestas das calçadas da extensão da Rua Bento Gonçalves e  transversais. Com  a parceria de Rosa, iniciam a limpeza longe..  Sozinha, recolhe dez sacos de lixo.  A sociedade suja, lança ao chão sem se dar conta, porcarias da vida moderna. Papel de bala, sorvete, folhetos e tocos  de cigarro.

Para Iara  as pessoas fumam em excesso, o hábito é notório na varrição perto de lancherias.  Um entrevero de tocos no chão. “O pessoal vai fumando e largando.”

Ex-babá, limpava os detritos dos nenéns, agora higieniza impureza de gente grande. Iara desperta às 4h30 da manhã. A varrição é uma atividade matutina. Às 6h, com a pá em mãos, inicia o expurgo: varrer, juntar e depositar no coletor.  Ato repetido durante sete horas do dia.  Volta e meia, vira a cabeça para receber um olá. “Eu e minha amiga somos comunicativas, pegamos boas ruas. Aqui as pessoas são simpáticas.” Ela surpreende-se por receber copos de água.  Satisfação é ganhar doações de comerciantes bondosos. “Minha filha vai ter bebê, eu ganhei um berço.”

O perfil simpático ajuda. Iara valoriza a profissão. É como se o uniforme laranja lhe desse o mesmo orgulho como se estivesse metida dentro de um jaleco branco.

Iara percebe, depois dos 40 anos, que sentimentos vão e voltam, não são lineares. Se há apreço no trabalho de gari, existe um desafio maior do que o monetário. Fazer a sociedade compreender que um lixeiro não é uma mera sobra social.  Um resgate de autoestima que é preciso começar pelo próprio gari, que teme ingressar em locais “chiques” pelo olhar intimador da classe média.

Iara e seus colegas alimentam-se agachados nas calçadas e escadarias. “Nós recebemos um valor para almoçarmos, mas não entramos em restaurantes. Sentimos a discriminação na própria pele. E também porque a gente mesmo se autodiscrimina.”

Um local confortável para sentar, comida quente de panela e apreciar o ambiente acolhedor de um bistrô estão anos-luz do homem que limpa a sujeira da humanidade. Porque não é o dinheiro que o detém a entrar no restaurante, é o temor do julgamento humano.  “Por sermos gari, nos rebaixam, acham que é serviço inferior. Eu e minha colega passamos poucas e boas. Fomos xingadas por estarmos na calçada. Mas engolimos numa boa.”

 Revista Café Virtual News/outubro 2013

—————————————————————————————————————————–

Longe da Nigéria, dos filhos e dos radicais islâmicos, Jimmi reencontra a esposa

O notebook  ecoa o som de metralhadoras e Folajini Olalekan Akenbobola, “Jimmi” -relata ataques de fundamentalistas muçulmanos contra cristãos na Nigéria,  país de onde  fugiu. Deixou para trás esposa e duas filhas.A Nigéria é o país mais populoso da África. Jimmi ganhava o equivalente a R$ 350 por mês como estivador. Os fundamentalistas islâmicos o perseguiam por ser cristão.Ele pediu asilo no Brasil e veio para Lajeado.

shade1

Um ano depois, em Lajeado no Bairro Montanha, Jimmi me conta tudo ao lado de sua esposa. Ele a reencontra.  A trajetória do nigeriano é de luta, renúncia e sorte. Há uma semana, buscou Folashade Alinot Akenbobola, “Shade” – uma negra de cabelo curto, olhar vivaz e corpo esbelto. Bonita e risonha sobrevoou o Atlântico para chegar ao Brasil. As crianças estão na África, esperando para serem resgatadas. Jimmi veio parar em Lajeado – com a ajuda de uma igreja pentecostal  e foi tema de uma reportagem que fiz para o jornal O Informativo em 2012.

Encontro na igreja

Na Nigéria, o grupo radical Boko Haram espalha medo e rechaça os cristãos.Frustrado por não exercer sua crença e por querer melhorar financeiramente, Jimmi decidiu sair de seu país e deixou a família. Chamou isso de renúncia. É preciso sofrer primeiro todas as dores do mundo, a tristeza da despedida das filhas e da mulher. É como se tivesse de dar um passo para trás para mais adiante dar dois à frente. Com a ajuda de seu irmão, veio ao Brasil.Pediu asilo político. Em Lajeado, sua nova igreja pentecostal conseguiu, por meio de envio de documentação à embaixada africana, obter visto de missionário. A vida do exilado se iluminou quando no aeroporto paulista mirou os olhos da esposa, depois de tanta ausência. Vinte e quatro horas depois, eles desembarcavam do ônibus. Eram recebidos em Lajeado. As filhas, na Nigéria estão com a avó. Jimmi e Shade dialogam com elas por meio de um cartão telefônico internacional que custa muito pouco, e também pela internet. É um jeito de amenizar a saudade. Saudade que brotou pela intolerância religiosa, adensada por uma seita: Boko Haram quer impor um Estado islâmico no país.

Jornal O Informativo do Vale/janeiro 2013


Gaúchos do Vale migram mais para Santa Catarina e Paraná, diz IBGE.

turquia

Vale do Taquari – Pelo menos 9.562 pessoas nascidas na região moram em outros estados ou países. É o que indica o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no cruzamento de informações sobre o lugar de nascimento e de residência da população. Os dados fazem parte dos resultados de nupcialidade, fecundidade e migração e famílias e domicílios do Censo 2010. Outras 529 pessoas nascidas no Vale do Taquari moram no país, mas não há especificação de qual estado. O restante, 327.653, reside no próprio Rio Grande do Sul.
Os estados que receberam mais nascidos no Vale são os vizinhos Santa Catarina e Paraná. De um total de 337.744 pessoas nascidas na região, 4.354 moravam em solo catarinense em 2010. Outras 2.387, no Paraná. Juntos, os dois estados do sul do país correspondem a mais de 70% dos migrantes do Vale em outros estados do Brasil. Pouco mais de 4% dos migrantes, 385, moram no exterior. Destes, 170 nasceram na cidade mais populosa da região: Lajeado.
Seja para conseguir conquistas profissionais, estudar ou movido por um ideal romântico – para acompanhar o marido ou a parceira -, o movimento de migração muda o mapa e altera possibilidades. Transforma destinos para sempre. Foi assim com Flora Darde, que saiu com 18 anos de Lajeado e retorna para a cidade como empresária para revender seus acessórios. É a volta que a vida dá, mesmo nos movimentos de migrações.

A vida em Floripa
Há nove anos, Flora Darde juntou a bagagem e foi com o namorado, Evandro Daltoé Weber, também de Lajeado, para a vizinha Santa Catarina. Ambos queriam estudar. Flora foi fazer faculdade de moda e quis unir o útil ao agradável: na cosmopolita “Floripa”, conseguiu inspiração para elaborar acessórios que fazem as mulheres suspirar. Hoje, aos 27 anos, ela os vende para Lajeado e cativa cada vez mais a clientela daqui. Casou com Evandro e virou empresária de sucesso. Evandro é administrador, e eles trabalham juntos na loja de acessórios e na marca de t-shirts. A designer continua gaúcha, mas ela e Evandro buscaram seu cantinho no coração de Santa Catarina. Os dois moram no Centro, à beira-mar, em um apartamento perto do ateliê. “Eu vou trabalhar a pé. É uma cidade grande, que lembra um pouco o interior.”
Como saíram novos de Lajeado, os dois incorporaram o jeito autônomo de viver das grandes cidades. Florianópolis respira tendências. Ao caminhar pelas ruas e pela praia, a designer presta atenção nas cores, formas, no jeito de vestir e no comportamento e assim desenha os adornos e coleções que fazem a cabeça das mulheres: uma caveira, um colar de pérolas. Tudo vira moda. Em termos profissionais, Florianópolis é mais avançado do que o Rio Grande do Sul, por isso Flora continuará lá. Mas gosta das clientes daqui, que estão cada vez mais contemporâneas, sabem o que querem e gostam de novidades. Ela acompanha suas “mulheres” pelas redes socais. Gosta de “sentir” seus estilos. Perceber e acompanhar onde estão. Perto do mar e vizinha ao Estado onde nasceu, Flora articula seu sucesso com o marido. A felicidade está no chão em que resolveram morar.
Foi preciso uma boa dose de coragem para Flora e Evandro terem dado o “pulo do gato” tão novos. No Facebook dela, Flora homenageia sua própria ousadia e por tabela, de outros migrantes, com um poema de Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Mapa da migração
Conforme o IBGE, mais de 73% dos nascidos no Vale que saíram do Estado moram nos estados da Região Sul
– 9.177 moram em outros estados
– 529 moram no Brasil, sem especificação
– 327.653 moram no próprio Estado
– 385 moram no exterior
– das 337.744 pessoas que nasceram
no Vale do Taquari, 2,87% moram em outros
estados, e 0,11% mora no exterior

Ar seco, coração aberto em mundo milenar
A Turquia recebeu muito bem Cíntia Delazeri Dincer, que assim como Michele, elegeu a terra milenar para morar e criar raiz. Com 34 anos, a lajeadense foi tripulante de navio por quatro anos e meio e conheceu seu marido, Soner Dincer. Ela casou-se com ele em maio deste ano. Jurou que não voltaria para o mar. O casal escolheu como lar a Turquia. “Em dois meses estávamos com casa organizada e trabalhando em uma empresa de exportação. Meus colegas falam inglês. Não há pressão em aprender a língua turca, que é diferente das que derivam do latim.” Cíntia conta que na cidade não há roubos e existe respeito em relação à família. O turismo é forte, e a comida é farta. Ela encontra problema com o ar seco e o trânsito, pois são muitos motoristas. “Também tem as diferenças culturais e religiosas. Como nós brasileiros somos muito abertos, tudo fica mais fácil.”

Michele participará de reality na Turquia
Dos filhos do Vale que moram no exterior – 0,11% -, Michele Kafer Gultan escolheu um lugar exótico e intrigante para morar. Agora está sendo desvendado pela novela global. É a Turquia. Michele mora há sete anos em Istambul. Casada com o empresário Levent Gultan, Michele tem uma agência de turismo de luxo. Entre os clientes famosos, Gloria Kalil. Michele conta que teve de se adaptar aos hábitos do país e não foi fácil. “Apesar de parecidos com os brasileiros por ser um povo alegre e hospitaleiro, os turcos têm costumes diferentes, e levou muito tempo para me adaptar. Fora a língua, que é muito difícil, distância ainda maior do Brasil é a comida. Agora amo tudo isso.”
Istambul é considerada a Nova York do Oriente por ser muito cosmopolita. A cidade é moderna. Bem mais europeia do que se imagina. Michele já se considera cidadã e criou a Turistambul para mostrar aos brasileiros a cidade na sua visão. “Como sou brasileira, eu entendo as curiosidades e as preferências de meus conterrâneos. Gosto de mostrar a Istambul vibrante, cheia de estilo, apesar da história de mais de 2,6 mil anos.”
A lajeadense foi selecionada para participar de um reality (em canal tipo GNT) que mostra diversos países na versão de alguns brasileiros que ali residem. “Me encontraram pela Gloria Kalil, ela foi uma cliente minha no verão passado.” Ela ainda não pode dar detalhes do programa, mas está empolgada. Michele vem uma vez por ano a Lajeado. Quando folga, vai a Paris ou Milão. A filha, Yasmin, de 5 anos, fala inglês, português e turco, nesta ordem. “Eu ainda pretendo voltar ao Brasil. Mas ainda não chegou a hora de mudar.”

Publicada em O Informativo do Vale: http://www.informativo.com.br/site/noticia/visualizar/id/30206#ixzz2pdkd8VXy /2012


Surdo inventa idioma para se comunicar com a comunidade

Família conseguiu catalogar 400 vocábulos criados por Pedro Ambrósio Birck

Estrela – Com os olhos azuis curiosos, Pedro Ambrósio Birck (79) sorri e diz: “Pipioia”. O irmão José Inácio Birck traduz: “Galinha quando põe ovo está contente”. Ao ver alguém sorrindo, Pedro – que era agricultor – fez a alusão. Pedro tem o apelido de Pitt e inventou um linguajar pró­prio para se comunicar. E se utiliza de onomatopeias, já que viveu todo o tempo no interior de Estrela. E também o som das palavras. Assim: “hehe” quer dizer “rir”, e “lelê” significa “cantar”. 

surdo

Os vocábulos estão catalogados no “Dicionário Pitt” que a família traduziu quando fez a história de vida do octogenário que virou lenda na comunidade. Ele é um dos anciões do local. Quem conta a história é o irmão José Inácio. “Ele foi construindo a linguagem por meio da leitura labial. Para compreendê-lo, é preciso entender a vida dele. Ele tem uma metodologia própria para se expressar.”

Leitura dos lábios
Pitt construiu sua linguagem ao longo de 55 anos. Desenvolveu a habilidade da comunicação com o seu “idioleto” – a fala de um único indivíduo. Mas em Linha Delfina ocorre um fenômeno: todo mundo o compreende. Primeiro, porque a empatia com o agricultor aposentado é geral. Ele entra nas casas, frequenta os bailes e caminha dez quilômetros por dia. Não para quieto. É um senhor ativo, mas que vive no seu próprio mundo. Passa tranquilidade, apesar dos revezes de tudo o que sofreu.
Surdo de nascença, o menino, ao nascer, e para sobreviver, foi mantido aquecido com tijolos, naquele ano de 1933. Sobreviveu, mas nuca ouviu. Aos 25 anos começou a se expressar. Ele se exprimia com muitos gritos. “O seu gritar revelava a vontade de entrar no mundo da linguagem humana”, conta o “Dicionário Pitt”. Ele sempre foi muito curioso e começou a elaborar um método.
Com a leitura dos lábios, foi se comunicando por gestos e pelos sons da natureza. Assim, começou a ser ouvido e compreendido. Estava criado o seu idioleto. Pitt era ouvido. Até mesmo os bois na lavoura obedeciam ao seu comando. “Ele sempre teve afinidade com os animais”, conta José Inácio.
Prestes a trocar de idade – ele fará 80 anos -, a comunidade quer lhe dar uma festa. E ele antecipa a comemoração. Festa na língua dele é “fett”,  mas há uma inflexão na voz que só a comunidade germânica que convive com ele sabe dizer de forma correta. Nessas ocasiões, Pitt fica alegre – ou “flôh”, na forma de ele se expressar.

Andréia Rabaiolli

Publicado no jornal O Informativo do Vale: http://www.informativo.com.br/site/noticia/visualizar/id/28665#ixzz2pdhBHriq /2012

Lavoura nada arcaica

Nas 30 escolas de campo da região,  enxada ganha parceria de peso: a internet

images (13)

Vale do Taquari – Quem é urbano não entende muito bem, mas vai adorar a alface verde e vistosa que sai da propriedade da Dona Maria e que lhe ajuda a contrabalancear as calorias. Quem é do campo tem condições de festejar. Os alunos que semeiam ideias nas salas de aula estão mais inteligentes nas lavouras. Mérito das escolas de campo. O Vale do Taquari tem 30 dessas instituições. São colégios situados no meio rural, mas que existem também em área urbana como em Nova Bréscia e Doutor Ricardo. O currículo é voltado para preparar crianças para a agricultura, mas elas também têm de fazer a lição de álgebra na matemática e aprender história.

Na Coordenadoria Regional de Educação, Verani Berté é a assessora das escolas de campo e explica como esse movimento vem mudando a mentalidade de jovens que antes queriam viver na cidade, mas agora estão entusiasmados com a ideia de permanecer na área rural. “A ideia é oferecer aos alunos do campo tudo o que existe na cidade, mas dentro da realidade rural. A criança do campo tem direito a fazer faculdade, mas não precisa sair do seu reduto.”

Pouco a pouco, o Vale vai formando intelectuais campeiros, que não precisam necessariamente trabalhar só com a enxada, mas têm acesso a internet e saberão tocar seu próprio negócio. Mas para formar alunos rurais pensantes é preciso colocar no campo professores que gostem da terra e da natureza, e que saibam fornecer pedagogia rural, ensinando o manejo com os animais, a dar aulas ao ar livre e se identificar com a metodologia da lavoura. Hoje, 167 “mestres” rurais estão envolvidos na região e eles ensinam 1,5 mil alunos.
Se todas essas pessoas resolverem empreender no meio rural, o campo vai rejuvenescer em todas as frentes. Até 2014, a previsão é de que todas as escolas tenham computadores e o governo projeta conceder laptop a cada aluno. Segundo Verani, as escolas são gratuitas e foram feitas para barrar o êxodo rural. O campo também encanta, não é preciso correr para a cidade para estar à altura dos jovens da época. A tecnologia, a internet e a autoestima estão sendo semeadas na lavoura como mudas de alface, e tanto professores quanto pais mostram-se entusiasmados. “A maioria sonha com o filho permanecendo no campo e tendo uma vida digna”, enfatiza Verani.

A Emater dá a maior mão, levando agrônomos que os ensinam a empreender. Professores ensinam desde cedo alunos a lidar com o banco. Afinal, o homem do campo, que não é bobo, precisa aprender a ver os extratos e o lucro que a horta dá.

 Batovira gira em torno da escola
Na localidade de Batovira, em Progresso, a Escola Estadual Afonso Ferrari é a instituição que congrega a comunidade. Tudo orbita em torno da escola que tem 31 alunos, uma horta onde os jovens mexem na terra e uma educação voltada para o campo. Da lavoura para o computador, em alguns passos. As aulas de informática são feitas uma vez por semana. “Não é porque estão no campo quem não podem ter aulas de tecnologia. Estudando aqui, não precisam sair do campo”, enfatiza a diretora Sinara Ledur.

Andreia Rabaiolli

O Informativo do Vale: http://www.informativo.com.br/site/noticia/visualizar/id/23162#ixzz2pdkGQPDJ /2012


Sem os dois rins, vendedor aprende a filtrar a mente

Estrela – Há três anos, o representante comercial Ademir Decker (52) encara a fila do transplante. Há um ano e oito meses, vive sem os dois rins. Na terça-feira, Decker recebeu a equipe do jornal O Informativo e contou como faz para driblar a espera de pelo menos um rim. Na verdade, Decker não espera. Ele não precisa de um órgão para se entusiasmar pela vida. Não atrela a felicidade à doação de um transplante e, assim, não economiza vivacidade. Decker vive desde já. Desde sempre. Decker é um campeão de motivação. Não é à toa que tem uma extensa carta de clientes. Só 30% deles sabem que sua vida não é normal. O bom humor e o sorriso do representante são tão fáceis que seria estranho imaginar que ele tem alguma debilidade.

media_capa_cor_rimjpg
Mas Decker possui uma moléstia não somente esquisita, mas também rara: doença renal policística. Aparecem múltiplos cistos nos rins e, à medida que aumentam, provocam a perda de função do órgão de filtrar o sangue. Na família do representante é um mal da família materna. Mãe e tios morreram à beira dos 40 anos em razão da enfermidade. Não havia como driblar a genética e, próximo dos 30 anos, sentiu as dores se manifestarem. O sangue na urina levou o urologista a averiguar a radiografia dos rins. E logo a constatação. Uma doença grave que iria marcar sua saúde. O rim faz a limpeza do sangue. E os de Decker iam ficando grandes. Enormes. Ele foi deixando a vida passar, e os rins iam crescendo. Passou por uma infecção generalizada e, com alimentação equilibrada e orientação médica, conseguiu se manter sem hemodiálise até 2008.
Quando “caiu na máquina”, expressão utilizada por ele para definir o equipamento que depura o sangue, o rim de Decker só mantinha 9% de funcionamento. Sua urina não expelia mais impurezas. A ureia contida começou a lhe manchar a pele. Há dois anos, uma infecção nos cistos contaminou seus rins. Só havia uma saída: retirá-los.
No bloco cirúrgico, Decker encontrava forças para brincar com a mulher Noêmia: “Como vou viver sem os dois rins?.

Sala de aula
Uma indagação com um fundo de verdade. A família achava impossível tal façanha, assim como todas as pessoas que hoje perguntam a Decker: “Como você vive sem rim?”. O paciente é a prova de que a tecnologia aliada à atitude mental positiva faz milagres na recuperação. Decker reverteu a estatística funesta da família. Os membros morreram jovens, ele conquistou sobrevida de 12 anos e pretende deixar muita gente pelo meio do caminho. “Eles não tiveram a sorte que a minha irmã e eu tivemos de poder usar a máquina de hemodiálise.” A irmã, transplantada há oito anos, quer mostrar ao irmão o caminho do transplante e como sua vida mudará com um rim de outra pessoa. Decker desconversa. Não quer saber do futuro. O presente é seu único e mais valioso patrimônio, e ele faz do calendário o “tira-gosto” que ele não pode sentir com destilados e petiscos. “Vivo o dia a dia. Eu tenho que encarar a ferramenta que eu tenho na mão hoje, que é a hemodiálise.”
Toda semana, ele permanece nove horas no hospital, em dias alternados: três na segunda, três na quarta e três na sexta-feira. A hemodiálise é sua aula de vida. Em toda sessão, perde três quilos. A máquina chupa três litros d’água, que ele não pode mais expelir pela urina. Há um ano e oito meses, Decker não faz mais xixi. No seu braço há dois caroços pelos quais passam agulhas. Uma puxa o sangue para a máquina, através de um filtro, e outra o repõe por outro canal. Decker “urina” pelas veias. “Encarei a hemodiálise como se fosse voltar à sala de aula. Assim, nas segundas, quartas e sextas, tenho o compromisso de ficar três horas na sala, lendo jornais e vendo o notebook.”
No setor de hemodiálise, Decker fez amigos, se tornou conhecido. Era um dos tenores do grupo. Adorava cantar músicas dos anos 1970 e 80. Hoje conta histórias e faz pegadinhas.
O entusiasmo do representante endossa que a vida pode ser boa na fila de espera. Ele trocou os problemas por objetivos. E cada vez sua cartela de clientes aumenta mais. No Natal vai tomar duas latinhas de cerveja, como fez no ano passado. Nada mais. Essa será sua comemoração singular. No ano que vem vai trocar a televisão da casa e o sofá da sala. Metas reais que lhe dão o sentimento de vencer. Decker é o que pensa que é. Colocou a mente no lugar dos rins, e filtra mensagens positivas. Esse é seu sangue.

Trigêmeos
O tempo passou, e a doença dá lugar à metáfora. Ao retirar os rins, no ano passado, ele se dizia com trigêmeos. Pernas finas, barriga pontuda, esturricada, porque seus órgãos mediam 35 centímetros cada um. O normal é ter entre nove e 11 centímetros. Seus dois rins pesaram nove quilos: quatro um, cinco outro. O médico os colocou em cima de uma bandeja e mediu. A cena impressionava.
Impedido de urinar, ele precisa controlar o peso: manter-se nos 74 quilos para chegar à hemodiálise com 77. Assim, a máquina tira três quilos dele a cada sessão. A alimentação é mantida, e a ingestão de líquido, controlada: um litro por dia no máximo. Há menos de uma semana, ele saiu da sétima cirurgia: a água havia empedrado, e o médico teve de retirar também o líquido que virou um bloco de concreto no abdômen. Já está trabalhando.

Só o transplante salva
A chance de Decker voltar a urinar é única: o transplante de rim. Um apenas basta. A garantia é do médico urologista Ernany Vicente Bender, que tratou o paciente. Como o caso de Decker é genético, não existem meios de barrar a doença. “Com transplante, ele volta a levar uma vida normal”, afirma Bender.
O médico acrescenta que, em casos de herança genética, o recomendável é que o paciente procure manter um acompanhamento com especialista para evitar agravantes. “A evolução da doença acontece de qualquer maneira, porque é um defeito genético, sendo assim, a doença segue seu curso. O que se pode fazer é tratá-la”, completa.

Andréia Rabaiolli
andreia@informativo.com.br/2011

 O Informativo do Valehttp://www.informativo.com.br/site/noticia/visualizar/id/11776/?Sem_os_dois_rins,_vendedor__aprende_a_filtrar_a_mente.html#ixzz2uwcQsZPl

Independência ou morte? O que a escola jamais contou a você

A verdadeira Independência do Brasil não está nos livros. Fica escondida, pois a realidade tem mais cenas de ficção do que jamais a ficção teria se não fosse inventada
06 de setembro de 2012Andréia Rabaiolli
  
Antes de proclamar independência, Dom Pedro teve várias paradas. (Ilustração: Joana Heck)Antes de proclamar independência, Dom Pedro teve várias “paradas”. (Ilustração: Joana Heck)

A verdadeira Independência do Brasil não está nos livros. Ela fica escondida debaixo do tapete da história porque a que a realidade tem mais cenas de ficção do que jamais a ficção teria se não fosse inventada. O Mazup decidiu dar uma jogada de “Superinteressante” e desbravar para você um dos livros mais interessantes, de Laurentino Gomes, vencedor do prêmio Jabuti no ano passado. O 1822, eleito Livro do Ano. A obra é uma pesquisa séria, baseada em trocas de cartas na época do império. Vamos conferir um pouco da verdadeira independência?

INDEPENDÊNCIA OU BANHEIRO
Há 190 anos, Dom Pedro subia a colina do Ipiranga com uma baita dor de barriga. Antes de proclamar a independência, teve de ir várias vezes aos matagais, aliviar a diarreia que lhe dificultou o grito. Em cima de uma égua gateada e não de um cavalo forte, foi que o príncipe se achou num dilema: as margens do Ipiranga chegaram cartas de Portugal intimando o “moleque” a voltar. Com 23 anos, o príncipe era considerado um pirralho mal-educado pela corte.
Ele ficou tão indignado que perguntou a um padre seu amigo:
– O que faço agora?
O padre, prático, aconselhou:
– Não lhe resta outra coisa senão decretar o Brasil separado de Portugal!
E assim se fez: com voz mirrada e indecisa, com barro e lodo pelo corpo murcho da diarreia, Dom Pedro disse que o Brasil está livre.

PROCURA-SE AGRICULTORES
Quando o Brasil se libertou de Portugal, arrumou a maior briga com os açorianos. Mas aí, não tinha homens nem armas para enfrentar a batalha. De cada dez brasileiros, um apenas era alfabetizado. Ou seja, naquela época, era  todo mundo pobre, escravo, sem saber ler nada e com medo dos portugueses. Como ganhar a batalha? Dom Pedro contratou um cara que era expert em guerras e ganhava todas. Chamado Lorde Cochraine, ele era um pirata e mercenário da Escócia. Pedro disse: contrata uns caras para vir lutar pelo Brasil.
O Lorde  armou uma baita pataquada para seus conterrâneos. Em jornais alemães, colocou um anúncio: “Venha morar no Brasil. O Brasil precisa de agricultores que plantam e colhem. Receberão salário, casa e alimentação.” Um monte de agricultor com famílias se cadastrou e embarcou na canoa furada. Chegando aqui, os homens eram obrigados a lutar. As mulheres foram mandadas para Novo Hamburgo. Foi assim que Novo Hamburgo foi colonizada pelos alemães.

DEMONÃO
Enquanto a princesa era velada, Dom Pedro fornicava com a sua amante. Ela sim foi seu verdadeiro caso de amor: Marquesa de Santos. Eles foram o casal 20 da época. A paixão era avassaladora e consumia o casal.  O romance dos dois rendeu um dos conjuntos mais pitorescos da história. Nas cartas para a marquesa, Dom Pedro assinava como: “O Demonão.”  Intitulava sua genitália como “máquina triforme”. Colocou todos os familiares da marquesa como ministros ou coordenadores de algo. O romance durou sete anos. Depois o príncipe a mandou passear.

O CADINHO DE 1800
Pois bem, com o Brasil separado, Dom Pedro ficou imperador e mandava em tudo.  A noite, ele trancava a Imperatriz Dona Leopoldina no quarto que era para poder se fartar de volúpia com as chinocas nas estalagens. Era um tremendo mulherengo. De bigode, grosso e quase analfabeto (sim, Dom Pedro matava o português, pois escrevia mal), o imperador tinha um apetite insaciável. Alguns historiadores dizem que ele chegou a ter 120 filhos, mas oficiais, 12.

A VERDADEIRA PROCLAMADORA
A imperatriz Dona Leopoldina era uma mulher feiota, gorda e depressiva. (Naquele tempo não tinha Prozac). Mas era da mais alta realeza da Europa. Super culta e caridosa, costumava ajudar os pobres brasileiros. Foi ela a verdadeira proclamadora da independência junto com José Bonifácio (que era maçom). Dom Pedro ficou com a fama, na cortina, foi ela quem armou tudo. Dom Pedro batia nela. (naquele tempo a Lei Maria da Penha era uma utopia). Em sua última gravidez, Dom Pedro deu um chute em sua barriga. Ela morreu no dia seguinte. Os escravos choraram.

MARIA DA PENHA
200 anos depois, o Brasil conseguiu diminuir o analfabetismo assistindo as novelas da Globo. Mas vai mal nas notas do Ideb.  A imperatriz gorda foi trocada por uma guerrilheira boa de matemática e número, a economista presa na ditadura, Dilma Roussef, que se tornou a terceira mulher mais poderosa do mundo segundo a revista Forbes. Nem Dom Pedro conseguiu isso. Se fosse hoje, D Pedro talvez até fosse preso pela lei Maria da Penha. Ou contrataria um bom advogado e sairia ileso, muitos do Mensalão sairão sem sequelas.  O fato é que estamos aqui, 200 milhões de brasileiros que saíram dessa história pitoresca acima relatada pelo jornalista Laurentino Gomes no livro: 1822.

REVISTA MAZUP/setembro 2012

Permissão para tirar a máscara social

Quem é você quando tem a chance de ser outro? Agora que você vai participar da Festa à Fantasia, terá toda a chance de despir seu Zorro. Será uma profusão de “eus” na Festa à Fantasia. Qual deles será você em meio à multidão?
14 de setembro de 2012Andréia Rabaiolli
  
Use a máscara e caia na balada. (foto: Luca Lunardi)Use a máscara e caia na balada. (foto: Luca Lunardi)

 

Abra suas asas, solte suas feras, caia na gandaia, entre nesta festa. E leve com você, seus sonhos mais loucos. Cinquentões que nem estarão na mais badalada Festa à Fantasia do Sul do país lembrarão das Frenéticas cantando a música captada nos embalos das discotecas dos anos 1960. Ela existe e ainda persiste. E o fundo musical dela, Freud e a psicologia explicam: O sucesso de uma festa à fantasia é, justamente, pela falta de fantasia. Puramente paradoxal, não?
A psicóloga Suzana Feldens Schwertner vai enunciar. “Todo mundo precisa de fantasias. Não vivemos sem nos desligar, sem nos afastarmos de nós mesmos por um tempinho. Cada um faz isso de diversas maneiras e, algumas vezes, estas festas ajudam nesse ‘afastamento’”.
Pois agora, em 15 de setembro, os dados estão lançados: índias, oncinhas, bruxinhas, enfermeiras, tarzans e heróis de todos os tipos e estilos em uma festa que preconiza o tema da fantasia, mas que se caracteriza pela falta de máscaras.

Com que roupa eu vou?
A música de Noel Rosa – Com que roupa eu vou? – datada de 1930, serve de inspiração para a festa. Mas ao invés da roupa. Suzana questiona: qual é a fantasia que tu vestes na tua imaginação? Quem tu és quando podes te experimentar outro? “Pois é certo que todos temos nossas fantasias, quando deixamos nossa imaginação voar alto, munida de criatividade, emoção e sensações que afloram com todas as permissividades possíveis”.
Conforme Diana e Mário Corso, psicanalistas gaúchos, temos necessidade de ficção, de ficcionar a nossa vida, de criar enredos e histórias repletas de diferentes personagens – que muitas vezes “vestimos” em nossa imaginação – e que ajudam a enfrentar a realidade nossa de cada dia. Se é verdade que a infância é a época em que as fantasias precisam ser nutridas, por que pensamos que com o adulto seja diferente?A ficção supre as pessoas de algo que não se encontra facilmente em outros lugares porque não é possível viver sem escape. Para suportar o fardo da vida comum, é precisos sonhar.
Por isso que o Carnaval, assim como a Festa à Fantasia é uma válvula de escape. “Nestas festas, a liberação das máscaras é socialmente aceita, há uma permissão temporária para um ‘estado de desordem’, sem censura moral ou social. Posso ser quem eu não sou – ou seria: posso ser quem eu sou”.
O palhaço que conhece o eu
Com 29 anos, Kiko Decker todos os anos fica em frente da Festa à Fantasia. Ele trabalha com o imaginário. Como integrante do grupo Viajante dos Sonhos, um grupo de artistas, Decker é um palhaço que tem arte dentro de si. Quem é Decker de fato? Ele tem uma multidão de artistas dentro de si e percebe a multidão de pessoas perfiladas ávidas para sair de si na festa da “desfantasia”. “O sucesso da festa é justamente porque a pessoa não tem obrigação de ser como ela é todos os outros dias do ano. Usando a fantasia, ela parece poder tudo, extrapolar, quebrar preconceitos e um monte de regras que a sociedade impõe. Ela não precisa cuidar da maneira como vai dançar e pode curtir a festa. Talvez seja assim que as pessoas quisessem viver suas realidades”. Como palhaço, Kiko ama a profissão, aprendeu a perceber o brilho no olhar das crianças, a satisfação nos olhos dos adultos e a fazer graça com o ridículo. Quando coloca o figurino, ele sai de si. “É divertida a reação das pessoas, porque quando a gente trabalha com situações ridículas, o público se coloca nesta situação e isso se torna engraçado. Cria empatia.” A ideia do palhaço, é trocar de papel com a pessoa da frente, é fazer a imagem do espelho. É preciso talento, uma boa dose de humor e autoconhecimento. É preciso saber tirar máscaras. E ter aptidão. “Um palhaço ruim faz mal à saúde dos outros.” Um bom, faz bem ao coração. Bruxas e Zorros no salão fazem parte da catarse humana. Por isso, de vez em quando é fundamental uma festa a fantasia. Para tirar a maquiagem social e poder se vestir de “eu”. É em meio a eventos típicos onde impera a irreverência que o brasileiro se esbalda dentro dele mesmo, sob a bandeira da alegria. Festa à Fantasia, o show é o seu próprio eu.

 

O perfil que colocou Lajeado “no centro do mundo”

Para fazer frente ao orgulho gaúcho na Semana Farroupilha, fomos buscar alguém que entende de vaidade local. Dez meses depois da “morte” do perfil mais irônico e “bairrista” do Vale, o Mazup conversa com Rafael Spengler, criador de O Lajeadense
20 de setembro de 2012Andréia Rabaiolli
  
Perfil de O Lajeadense pode voltar som seu bairrismo. (foto: Luca Lunardi)Perfil de O Lajeadense pode voltar som seu bairrismo. (foto: Luca Lunardi)

 

Que o povo gaúcho é bairrista está na cara, no pelego e nas pilchas. A Semana Farroupilha vem para mostrar que a tradição acende a chama gaudéria propagandeada nos referenciais históricos e na mídia comercial.

O Vale do Taquari segue a tendência. O bairrismo de Lajeado ganhou evidência através do perfil no Twitter de O Lajeadense. Um tuiteiro sarcástico, inspirado no perfil de O Bairrista aproveitou a onda para destilar ironia. Durante um ano, foi mandando novidades e curiosidades sobre “o centro do mundo”.
Rafael Spengler de 26 anos, que hoje mora em Porto Alegre, manteve o anonimato durante muitos meses e quando “matou” O Lajeadense, em novembro de 2011, revelou no próprio Twitter sua identidade. “Até hoje as pessoas me pedem para voltar”, revela.

Spengler, que se formou em Economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mergulha nos livros para o mestrado, hoje nem teria tanto tempo assim para pensar nas manchetes sensacionais que tuitava na época, mas ele revela. “Quem sabe após as eleições O Lajeadense não possa voltar”? Depois de 1.676 tweets, Spengler matou um dos perfis mais comentados do Vale do Taquari que ficou famoso justamente pela ironia e o bairrismo que marcava o microblog.

Na verdade, pasmem vocês, Rafael é contra o “bairrismo” cultivado por Lajeado. Ele acredita ser um tipo diferente, não aquele cultuado nas tradições, mas que diferencia os grupos por classes sociais. “As pessoas se conhecem por morarem em um determinado bairro ou frequentarem o mesmo clube”. Na Semana Farroupilha, há o engajamento de os gaudérios de levar a tradição através do pampa. Apesar de Lajeado figurar entre índices destaques de desenvolvimento humano, a população é pouco engajada. As turmas se juntam pelo “status quo”.

Ironia que surpreendeu
O perfil de O Lajeadense começou com uma simples brincadeira. Spengler e seus amigos sempre brincaram muito com esse certo inconsciente coletivo de que “Lajeado é melhor em tudo”. O perfil fez tanto sucesso que surpreendeu Spengler. Em nenhum momento, ele teve intenção de levar o perfil para o lado político ou depreciar o estilo de vida da cidade.

O tuiteiro que tem como um dos escritores preferidos Alberto Camus, pretendia com O Lajeadense fazer as pessoas se divertirem. Mas também, fazer com que elas se sentissem olhando para um espelho. “Quando eu vim morar em Porto Alegre, percebi ainda mais o bairrismo de Lajeado.” Com humor não-convencional, amparado por uma vasta cultura e por “sacadas geniais”, O Lajeadense foi angariando seguidores. A inspiração vinha do cotidiano, dos jornais, e de algo que tenderia ao absurdo.

Em 29 de abril do ano passado, Spengler não poupou nem o Mazup. Escreveu ele: Tecnologia: “Hacker teutoniense invade servidor do Mazup e enfurece adolescentes de Lajeado. Protesto em frente ao Pimenta’s. BM no local”. Em outras mensagens, ele cutucava os estudantes: “Combate à insônia: 80% dos estudantes lajeadenses nos níveis médio e superior dormem durante as aulas, aponta estudo”. Como consegue falar de tudo um pouco, tem o pensamento ágil e a escrita fluida. Spengler é ligado em tecnologia, lê muito, é culto e promete dar uma de Lázaro, ou seja, quem sabe não “ressuscita” o projeto. “Sabe o que eu acho, d’O Lajeadense? Acho que eu teria que fazer algo “multiplataforma”, como é O Bairrista – ter Facebook, Twitter e um site. Seria viável.”

Tuítes que chamaram atenção
“Civilizações: Índios têm solicitação atendida e liberam BR-386. Tribo caigangue teria exigido carmelitos grátis por toda a vida.”
“Turismo: Eufóricos visitantes de Caxias e Porto Alegre (Região Metropolitana de Lajeado) fotografam nossas belas sinaleiras”
“Expertise: Defesa Civil de Lajeado se desloca para Santa Catarina. “Ora, ninguém entende mais de enchente que nós!”, justifica coordenador.”
“Ensino: Dilma confirma escola técnica federal em Lajeado. Curso de Construção e Manutenção de Sinaleiras já conta com muitos interessados.”
“Cultura: Feira do Livro de Lajeado foi sucesso. Evento servirá de modelo para outros menores, como a Feira do Livro de Porto Alegre”
“Ciência: Tempo faz surgir homens-anfíbios em Lajeado. Discovery Channel se adianta e anuncia série a ser gravada na cidade.”
“Música: Organização da Expovale 2012 diz “não” a Amy Winehouse e cantora, inconsolável, não vê mais sentido para a vida.”
“Celebridades: Luan Santana é flagrado comprando óculos para estrabismo na Ótica Haas. Histeria na Júlio.”
“Música: Fila para autógrafos surpreende e emociona Luan Santana. “Amar não é pecado nesta cidade linda. Estou apaixonado”, diz o cantor.”

Off Line
– O Lajeadense morre em 23 de novembro de 2011, com um fatídico anúncio: “Amigos, terminamos a jornada. Foi realmente muito divertido acompanhar a “vida online” lajeadense durante esses 11 meses.”
– E dá a cutucada final: “Por fim, nunca é demais lembrar: Lajeado pode não ser a cidade mais perfeita do mundo, mas cabe a nós melhorá-la sempre.”
– Dez meses depois, muita gente pede o retorno de O Lajeadense.

 

Homens cheio de tempero

Homem de forno e fogão,  o “chef” Leonardo Barboza Soares tempera a vida de forma “caliente”. Adepto do “slow food”, não tem pressa de cozinhar, mas com uma pitada de fervor e pimenta, diz que os homens quebraram paradigmas na cozinha.
12 de novembro de 2012Andreia Rabaiolli – Pita
  
Em “fuego” lento. E Apimentado (fotos: Lucca Lunardi)Em “fuego” lento. E Apimentado (fotos: Lucca Lunardi)

 

Homem de forno e fogão,  o “chef” Leonardo Barboza Soares tempera a vida de forma “caliente”. Adepto do “slow food”, não tem pressa de cozinhar, mas com uma pitada de fervor e pimenta, diz que os homens quebraram paradigmas na cozinha. Na Irlanda, especializou-se em gostos e sabores.  Voltou a Lajeado e pescou homens e mulheres pelo estômago. E pelo talento.

Na infância, em vez de correr atrás da bola e perseguir o sonho de ser jogador de futebol, Leonardo Barboza Soares seguia os pais até a cozinha. Ensaiava pratos simples: a dobradinha feijão com arroz e o hambúrguer caseiro o levaram a pilotar o fogão. Com 14 anos resolveu investir no curso de Gastronomia Gaúcha na Univates. Com 20 anos embarcou para a Irlanda. Com 22 anos voltou para Lajeado e dessa vez com novo status, chef de cuisine: trouxe  na bagagem a fluência em inglês e espanhol, a sofisticação da cozinha francesa e italiana e o apego às caçarolas de cerâmica e panelas de barro.

Leo, como é chamado, aprendeu a fazer pratos elaborados em um café bistrô na Irlanda, mas também devido a suas andanças na Europa. Do camarão a frutos do mar, é cozinheiro de mão cheia. Peixe a carne de caça de javali que tem de  cozinhar na panela por oito horas a fio, Leo não dá trégua na cozinha. O rapaz de 22 anos é um eterno vigilante das panelas. “Com panela de pressão não dá para brincar, não”.

Do avô fazendeiro, herdou o gosto pela comida campeira e o orgulho pelos pagos. “Por isso fiz gastronomia gaúcha”. Da cultura brasileira, o gosto pelo nosso sabor. “Tenho orgulho da nossa comida. Morei fora, mas só nós temos tantos sabores assim”.

A primeira garfada

Leo voltou da Irlanda no início do ano e faz sucesso com o menu de Escondidinho, Panquecas e A La Carte. Os elogios são abundantes. Ele compara sua comida a uma obra de arte. É igual à um escultor, precisa pensar, programar e conceber para pode produzir para que o público tenha prazer e deleite. Mas diferente da escultura, em que a obra se perpetua na parede, o alimento é consumido logo. “Mas eu sei que ele fica registrado na memória. Eu fico percebendo a expressão da primeira garfada. Esta é minha gratificação”

Sabores

Leo é um chef-gourmet inquieto. Reconhece que está fazendo um “pit stop” em Lajeado. Não é realmente uma parada para ficar. Como é muito novo, quer conhecer novos gostos e sabores. Quer agregar novos temperos em sua vida. Prepara sua próxima viagem. Talvez  Oceania. “Pretendo fazer uma faculdade e depois voltar”. Quem sabe o que a vida reserva para um homem que é cheio de temperos?

Slow Food

Mazup – O homem tem o dom de pilotar o fogão?
Leo – Ambos os sexos tem a aptidão. O homem se destaca nas grandes cozinhas pelo fato de ser ambiente agressivo, preciso e objetivo. São características masculinas.

Mazup – A cozinha é uma terapia?
Leo – Eu considero uma terapia, até pelo fato de quando se entra na cozinha todo o resto fica do lado de fora. A gente tem que ter o máximo de atenção no que está fazendo para atingir a excelência.

Mazup –Talento ou paciência para fazer comida?
Leo – Com paciência se conquista o talento, pois de prato em prato a gente aprende um pouco mais, aprimora. Quanto mais trabalho, mais desenvolve-se o talento.

Mazup  – Você gosta mais de sal ou pimenta em sua vida?
Leo – Pimenta, porque eu gosto do estilo latino de vida, coisas “calientes”, por ser surpreendente. O sal não tem outro resultado a não ser o salgado. A pimenta é mais complexa. Porque ela pode ter  mais sabores.

Mazup – O que você cozinha em fogo brando?
Leo – A vida tem que ser levada em fogo brando. A gente tem que  apreciar o tempo, a comida, coisas que estão a nossa volta, buscar a qualidade, aproveitar cada momento. Eu sou totalmente adepto do “slow food”, tirar o tempo pra comer, sem pressa, simplesmente aproveitar os pequenos prazeres da vida.

Mazup -O que você acha que deve ser torrado?
Leo – Eu acho que o “fast food”. Porque ele só alimenta a pressa que a sociedade impõe sobre nós. O resultado pode ser visto nas novas gerações.

Mazup – Uma receita que nunca falha.
Leo – Cerveja e churrasco no domingo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s